terça-feira, 5 de março de 2013

Aperitivos no Tempo!




"O tempo cura tudo..."

Já todos o ouvimos, já saíram da nossa boca entre lamúrias e ânsias de esperança estas simples quatro palavras com tanto peso num futuro.
Não acho que o tempo cure tudo. A distância do ponto de partida é que nos liberta na descoberta de novos horizontes cheios de novos pontos e conquistas mas a marca permanece. Talvez por ser vista à distância pareça mais pequena mas tal como o astronauta acabamos sempre por regressar aquele ponto pequeno que é a Terra.

Em miúda fui atacada por um cão que era meu desde pequena. Não penso nisso todos os dias mas cada vez que por acaso passo com os dedos no pescoço junto à orelha, sinto aquele alto e imediatamente volto para aquela tarde e recordo como se fosse hoje!
Hoje relembro e revejo tudo com outro olhar. Imagino o pânico de quem estava comigo, o susto de quem me abriu a porta e o olhar terno e preocupado de quem me tratou.
As minhas cicatrizes na cara passaram, o respeito por cães daquela raça mantem-se e a consequência de ter sido abatido depois de ter atacado novamente alguém deu-me uma espécie de alívio com uma profunda tristeza. Afinal aquele tinha sido o amigo que me acompanhara na fase mais difícil da minha criancice.
O tempo remediou a falta dele com outras coisas mas passado tantos anos a marca no pescoço permanece e ativa o que está no coração!

O tempo não cura, não apaga, distância-nos de tal maneira que com a serenidade necessária conseguimos olhar e perceber, rir ou chorar, amar ou duvidar, questionar ou admirar o que fomos!
O tempo dá-nos a hipótese de com calma nos irmos conhecendo e aprendendo com aquilo que já passou mas marcou!
Estende-nos uma bandeja com vários aperitivos de nós mesmos prontos a serem retirados quando e onde quisermos. Dá-nos a possibilidade de vermos que somos muito e muito mais!
Porque o tempo passa mas não cura, acentua o que mais falta faz e que por mil razões e galáxias de distância nunca será entendido porque no coração as leis da perceção, análise e equilibrio não funcionam!

O tempo é a nossa cortisona, disfarça uma dor que ao mínimo toque volta a surgir! Ou o aproveitamos enquanto estamos bem para encontrarmos a raiz dos nossos males ou passaremos uma vida inchados e ressacados de falsos eu´s mascarados com o passado que o tempo não curou...

Não temos nem devemos viver no passado ou pelo contrário fugirmos dele, podemos aprender com ele!
Afinal, a bandeja a ser servida só é realmente completa, bonita e genuína com todos os aperitivos, com todos os pontos que mesmo distantes no passado nos marcaram e nos foram tornando quem somos!





quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

NÃO! não..Não

Desde pequena que fui dizendo "não" e ouvindo também várias vezes a palavra "não!".
É diferente dizermos ou ouvirmos um não. A palavra "não", escrita ou falada implica a recusa de alguma coisa, a repulsa e impedimento de chegarmos ou atingirmos algo. Contraria uma vontade existente e obriga-nos a recuar. Ninguém gosta de ouvir um não, salvo raras exceções!
A  minha e adorada avó Zé sempre me alertou para a importância e benefícios da palavra Não! Quando estava na Universidade enviou-me um artigo de um jornal com os efeitos e mais-valias de dizer Não! Hoje percebo o envio desse artigo! Hoje percebo que me queria mostrar que mesmo quando me disse "não", me amava e quando o fazia ainda o demonstrava mais! Aquele artigo foi a forma de me mostrar através de alguém que sem a conhecer escreveu em sua defesa e me mostrava que só consegue dizer "não" quem realmente ama e o faz por amor! Só consegue dizer "não" quem nos ama acima do seu amor-próprio que permite ter como causa de dizer "Não" um desassossego e aperto no coração que se apodera de quem o pronuncia!
Só quem ama consegue aguentar a raiva, choro e irritação causadas por um "não"! Só quem ama consegue ver para além de um amuo e suportar todos os olhares mal-amados! Quem ama cuida e cuidar não é mais que saber dizer "não" para que um dia também nós saibamos ouvir e dizer "não"! Quem ama não quer criar monstros iludidos de que o mundo é de facilidades mas sim pessoas bem formadas e preparadas para ultrapassar todas as negas que a vida lhes colocar!


Hoje não só percebo como sinto a dificuldade e responsabilidade de saber e conseguir dizer "Não!".

Uma das famílias que acompanho há mais tempo está a passar a fase de ouvir da minha parte o Não!
Não posso atender sempre o telefone porque também trabalho. Não posso assumir uma conta da luz quando a mãe trabalha há um ano e deveria ter poupado dinheiro para as despesas mensais! Não, não vou apesar de ter donativos para tal dar-lhe dez euros para pagar os remédios da farmácia quando chego a casa e estão maços de tabaco na mesa! Não vou entregar o beliche quando não existe dinheiro para o essencial e esta mãe aparece com madeixas no cabelo! Não irei à escola defender os pequeninos quando estes são mal-educados e batem nos outros, antes pelo contrário sou a primeira a chamá-los à atenção! Não vou nem posso fechar os olhos e fingir que esta família espetacular, alegre e esforçada está a cair no comodismo de se encostar ao que vamos fazendo por eles.

De uma coisa tenho a certeza, por gostar tanto de todos, desde a mãe aos pequeninos, Sim, vou-lhes dar todo o apoio na gestão das contas da casa! Sim, vou com a mãe ao supermercado e ajudá-la a perceber onde estão e quais são os produtos mais baratos e de qualidade. Sim, vou fazer de tudo para que sejam responsáveis e assumam um papel ativo na família, bairro e sociedade. Sim, vou tentar que percebam que para sermos respeitados temos que respeitar e que os professores não são nossos escravos.
Sim, vou impulsioná-los a conseguirem resolver os seus problemas sem dependerem de mim. Sim vou fazer de tudo para que aprendam a ouvir um não e o saibam dizer também quando necessário!

Sofro horrores cada vez que lhes digo um Não e do outro lado vejo e ouço a dúvida se ainda estarei a ajudá-los ou não! Custa-me  mas acredito que seja por um bem maior.  Acredito que esta sensação de coração apertado que tenho sentido nestes dias vale a pena e espero que daqui a uns tempos tenhamos todos a recompensa!


Obrigada por todas as vezes que foste forte e mostraste segurança nos teus "nãos" mesmo que te tenham custado dias amuada contigo, respostas menos queridas e olhares menos simpáticos! Imaginar o que te fiz sofrer cada vez que o fiz doí-me imenso e mais ainda, agora, que dava tudo para te abraçar e dizer que Não fizeste nada mal em me teres dito tantas vezes que "não" porque agora sei que foram para o meu bem e por me amares!

Um dia vou-me agarrar a eles para também dizer aos meus pequeninos tantas vezes e tão bem como tu a palavra NÃO!
Por agora já comecei os treinos e vamos ver que tal me safo nisto de ter que dizer que não...

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Saudades tuas Sofes!

Ontem o dia começou com o ritual do costume: cabelo ensopado e a ser seco com o calor da ventilação do carro, blush a ser posto em cada semáforo encarnado ou transito que surgisse!
De repente olho e vejo um carro igual ao teu com uma rapariga tão parecida contigo que por segundos me esqueci que estavas em Angola!
Atirei o blush para o banco do lado e comecei a acenar de alegria e entusiasmo! No mesmo instante em que tenho consciência que estás longe deparo com uma cara desconhecida que nunca poderia ser a tua! Que desilusão!
Gostava que aquela euforia não tivesse durado segundos e fosses mesmo tu!
Acho que são as saudades e a falta que fez não estarmos na correria do Natal e passagem de ano a fazerem sentir-se!
Tenho saudades, muitas!

No caminho até ao trabalho fui-me relembrando de cenas passadas…
As noites em minha casa para me sossegares como uma irmã mais velha faz quando a outra tem um pesadelo.
A célebre e dramática odisseia entre a Avenida da Liberdade, com passagem pelo Rato e fim na Rua do Salitre e ainda nos conhecíamos mal...que dia! E que extraordinária que foste!
Fazes-me falta! Preciso da tua sanidade e estabilidade que estão para a minha inconstância e insegurança como a água dos oceanos para o sal!
Dos teus mimos que não chegam em abraços nem beijinhos porque não és dessas coisas mas se revelam com o estar presente nos momentos mais importantes! É tão bom rever esses momentos e saber que teres estado fez a diferença...
Queria ter aqui o aconchego da tua alegria quando sabes que estou feliz e o franzir dos olhos quando achas que estou mal!
Acreditas em mim e queres o meu melhor e sempre que errei continuaste aí, onde ainda estás hoje!
Este mundo precisa de senhoras como tu, em que venha o que vier, aconteça o que acontecer, até podes desanimar mas não desistes! E nunca desististe de mim...
Tenho saudades dessa bundinha a dançar e do teu olhar de quem sabe amar!
Tenho saudades de te ter aqui ao lado e te puder visitar...ir beber café e contar as novidades boas em que ando a trabalhar e que estou a amar!

Ainda bem que há uns bons anos o curso nos juntou! Ainda bem que posso ter no meu coração uma amiga tão querida e especial que quando chamo de mana não é banal...

Fazes-me muita falta Sofes e estou seriamente a pensar cair na pateguice de ter uma fotografia tua no espelho do meu carro...não vá cair em engano outra vez ;)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

A viagem invisível aos outros...




Sentado numa cadeira confortável e espaçosa na primeia classe de um avião ia Amadeu em direcção a Lisboa. Tivera uma reunião bastante importante e deveras cansativa. Ansiava por aquelas horas, sentado e descansado sem ter que raciocinar. Teria apenas que voar tranquilo e acordar na aterragem.
Ao seu lado tinha um pai com três crianças que não paravam de correr, saltar e rir. Tocavam no botão que chamava as hospedeiras de bordo e entre risos escondiam-se, fugiam e pulavam entre as cadeiras.
Exausto e ansioso por dormir Amadeu levanta-se e bruscamente dirige-se ao pai das crianças reclamando o seu direito de paz e sossego naquelas duas horas de voo!
De forma indelicada e rispída mostra o seu desagrado e saturação!Insulta o pai e põe em causa a educação daquelas crianças! Chama as hospedeiras e exige uma atitude!
O pai das crianças cabisbaixo acena com a cabeça concordando e aceitando a revolta de Amadeu diz-lhe apenas de coração destroçado:
-"São meus filhos! Têm 5, 7 e 9 anos. Acabaram de perder a mãe e por isso talvez não tenha coragem de neste momento lhes retirar a alegria e entusiamo de estarem a voar! Talvez não seja capaz de os mandar calar e lhes roubar o sorriso e brilho nos olhos que tanto preciso ver!
Peço desculpa mas hoje não o farei...hoje vou deixá-los rir, cantar e pular! Vou deixá-los aproveitar ao máximo todos estes minutos de entusiasmo e alegria! "
Amadeu ficou petrificado! Lentamente e fora dele recuou não sabendo bem onde pôr os pés! Por segundos parecia que uma janela se tinha aberto e o sugava lentamente para fora do avião!
Suplicou a ele próprio para não ter feito o que fez, não ter dito o que disse, não ter julgado sem saber...
Os gritos, os pulos, as gomas a voarem entre cabeças, as gargalhadas entusiastas deixaram de lhe rosnar nos ouvidos! De repente sentiu-se estupidamente pequeno e ridiculo!
Surgiu nele a vergonha e vontade de também com eles gritar, pular, cantar e abraçá-los porque realmente a vontade dele de descansar poderia ser adiada para dali a umas horas mas o amor de uma mãe não estaria à espera deles quando aterrassem! O calor e companhia da mulher não estaria em casa à espera para os receber! Aquela família ia aterrar numa nova vida...

Somos tantas vezes Amadeus! Julgamos os outros tantas e tantas vezes sem pensarmos antes! Não nos pomos no lugar do outro e ocupamos apenas o nosso! Criticamos e banimos o desconhecido ou o mais próximo sem antes nos questionarmos do porquê? Como? Quando?

Esquecemo-nos que a realidade dos que amamos e estão perto de nós nem por isso é igual á nossa!
O nosso avião pode ser o mesmo mas a nossa viagem é diferente porque também nós o somos!
Há que aceitar a viagem a que Deus nos propõe porque é única, é nossa mas pode-se tornar mais fácil e suave se quem se sentar nas cadeiras ao nosso lado a tentar compreender!

Só assim irão aceitar ausências e gargalhadas! Só assim viajarão connosco e não cairão no erro de julgar o que felizmente não vivem...e quando o viverem quem já viajou naquele avião saberá certamente compreendê-los e aceitá-los.






sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

All In no Amor!

O ano de 2012 acabou bem e felizmente 2013 continua no seguimento do irmão mais novo! :)

Não pensei em desejos para pedir em cada passa engolida em seco e à pressa! Não parei nem me perdi calmamente em pensamentos para rever 2012 e projectar 2013!
Ao contrário de anos anteriores em que naturalmente relembrava os momentos mais marcantes e idealizava algo novo, desta vez distrai-me e entrei em 2013 sem fazer o cadastro de 2012!

Ainda assim e muito ao de leve nestes primeiros dias do novo ano, entre mil coisas a acontecerem ao mesmo tempos fui-me apercebendo dos meus desejos para 2013!
São tão simples como: Injecções de Saúde, Músicas de Amor e um Carregamento Geral e Intenso de Auto-Estima!

Este ano precisa de muita Auto-Estima em todos os seus dias para contrariar o número do azar que carrega consigo e nos irá acompanhar!
É urgente gostarmos de nós! É preciso mimarmo-nos! Tentármos saber o que valemos e dármos festinhas às nossas valências para que se tornem dons!
Quando tal acontece temos o nosso fogo de artificio, as nossas doze badaladas e salto com o pé direito! Temos aquilo em que somos bons, descobrimos o caminho!
É raro atingirmos o fogo de artificio e podemos achar que é impossível! Desmotivados mas não desmoralizados aparece uma crise e uma troika que nos deita mais abaixo e nos faz tender para a certeza que já não será possível encontrarmos o nosso lugar aqui! Mas nada é inatingível e para não o ser, o mínimo pedido é acreditarmos que somos mais do que um papel, mais do que alguém insinue que somos! Seja naquilo que ambicionamos ou seja no que tiver que ser feito, valemos imenso! 
Gostármos de nós neste ano de 2013 passará pela árdua tarefa de nos pormos á prova constante e diariamente caso contrário, seremos inseguros e a insegurança trará a dúvida, solidão, mesquinhez e rapidamente nos tornaremos imagem dos outros. Perderemos a nossa identidade, o nosso rumo e acabaremos por ser somente rochas onde rapida e ferozmente correrão e passarão águas frias de outros rios que não os nossos!
Se não tivermos a certeza do que somos e valemos para nós e para os que amamos entramos em remoinhos superficiais mas perigosamente corrosivos!
E aqui é que entra o Amor!
O Amor ao próximo! Ao que ñão conhecemos e se cruza na rua perdido! Ao que divide a almofada ao nosso lado, ao que nos dá o pão, nos empresta azeite quando este escassa,  nos ajuda a carregar os sacos das compras até casa quando nos vê a corar de esforço. O amor da melhor amiga, do amigo chato mas divertido do colega que connosco passa o seu dia e não nos escolheu para ter ali a toda a hora ao lado dele.
O amor ao que todos os dias e se alegra com o nosso olhar entusiasta e nos dá o seu conforto quando a lágrima em esforço para não se dar a conhecer acaba por escorrer...
Amor aos que nos amam e que mesmo longe sabemos que estão!
O Amor em todas as suas dimensões mas que o seja sempre verdadeiro e não se encontre em lojas asiáticas ou indianas. O AMOR!
Vamos precisar dele aos litros!
Só com ele famílias ultrapassarão a falta, o medo a angústia e desespero!
Só com amor conseguiremos perdoar divídas ou com quem as fez lutar para as liquidar!
Só o amor tolerará a ausência impulsionada pela necessidade de desbravar outras fronteiras na procura de mais e melhor! Serão raros os Amores que sobreviverão às constantes saudades e irão contar-se pelos dedos de uma mão aqueles que aceitarão a distância como uma ponte cheia de sacrificios mas necessária para um futuro melhor!
Só o amor conseguirá entender e perceber que quando se ama há vários tipos de amor e cada um se manifesta à sua maneira e com o seu tempo! E quando se ama o próximo fala-se, conversa-se, compreende-se e perdoa-se! Quando se ama não criamos problemas aos que nos estão próximos quando a vida por si só já se encarrega de o fazer.
Vai ser um ano de viagens onde não será fácil partir nem ficar! Um ano de encontros e desencontros! Ganhos e perdas mas não há crise que nos tire o amor que podemos dar e receber!
Se deixarmos que o amor por nós e pelos outros seja corrumpido por inseguranças e invejas perdemos tempo, desperdiçamos energias e prejúdicamos a nossa saúde! Tornamo-nos anões rodeados de pequenez, meros grãos de areia no deserto que à miníma tempestade voam para outro oásis e são esquecidos!
Para estármos bem precisamos da saúde mas se não estivermos tranquilos e se não formos amados  rapidamente a saúde nos deixa entregues à merce de doenças!
Somos humanos feitos de nervos, músculos, articulações, batimentos cardiacos que imediatamente respondem ao nosso cérebro! Ora, se este desperdiçar a maior parte das suas capacidades e neurónios com insignificâncias ou revoltas, a guerra interior será lançada e ficarão apenas as baixas e feridas, o desânimo, a tristeza e depressão.
Se não cuidármos e gostármos de nós será extremamente difícil dármo-nos aos outros e sermos saudáveis!
O Amor vence tudo e só quem nunca amou não perceberá. Aposto convictamente no Amor como base para conseguirmos tudo o resto!
Aposto no amor que nos dará a segurança, que venha o que vier e vá para onde for está connosco!
Venha um 2013 com toneladas, carragas, paletes e resmas de Auto-Estima para conseguirmos dar o nosso Amor da melhor maneira e conseguirmos recebê-lo, partilhá-lo e respirármos saúde!!
Venha o que vier se nos mantivermos juntos e descartármos a pequenez exterior certamente seremos grandes! Certamente marcaremos a diferença e de sorriso em sorriso hão-de ir aparecendo gargalhadas!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

É impossivel ser sempre forte!

Há dez anos, antes de ser operada nos Estado Unidos tive durante um ano de médico em médico. Inicialmente para descobrir o que tinha, depois para saber o que se poderia fazer ? Onde? Quando? Quem? Como? Quais as consequências?
Foi um ano tramado mas que Graças a Deus com contactos, muito amor e paciência conseguimos a melhor solução com um dos melhores médicos e felizmente tudo se resolveu da maneira mais prática e simples.

Desse ano gravo muitas memórias. Nunca me hei-de esquecer dos imensos exames que fiz e do desconfortável que eram. Tive a sorte de apanhar enfermeiros e médicos competentes mas não me livrei das exceções.
Uma das exceções marcou-me! Ainda hoje me agonia e me recordo como se fosse hoje! A falta de cuidados que tiveram, o despreendimento com que fui tratada e a sensação de me sentir mais um bocado de carne com olhos no meio de tantos foi surreal!
Nesse dia escrevi no livro de reclamações! Reclamei o meu direito de enquanto doente ser pessoa e merecer ser tratada com todo o respeito e dignidade. Acredito que seja complicado para estes profissionais não tratarem o sofrimento por tu e facilmente caírem no desleixo de o desprazerem e esquecerem que cada doente é um doente!
Cada doença é uma doença e acima de tudo somos todos pessoas com sentimentos que merecem ser bem tratadas e honradas!
(Uma pessoa que tenha elegido como profissão ajudar e tratar o outro não terá que pôr paixão, empenho e coração nas suas ações? 
-"A todos os que sofrem e estão sós, dai sempre um sorriso de alegria. Não lhes proporciones apenas os vossos cuidados, mas também o vosso coração." Madre Teresa de Calcutá)

Feita a reclamação, mal saí do hospital recebo um telefonema da minha avó! Ainda ressentida do exame a minha voz deve ter soado baixinho e do outro lado começou um raspanete para acordar e ir para as aulas! Imediatamente soltou-se em mim um choro enorme sem fim!
Entre soluços e nervos tentei explicar que não estava a dormir, que não estava nas aulas! Que tinha acabado de fazer um exame muito desconfortável e não sendo suficiente ainda piorou quando abriram a porta que dava para a sala de espera dos exames!
Chorava ali agarrada ao telemóvel! De cansaço de tantos exames, de saturação de tanta procura! De querer respeito e alguém ali comigo que me desse a mão e me limpasse as lágrimas! Alguém que sem culpa do que tinha me consolasse!
Do outro lado, ficou um silêncio tremido e arrependido. Aceitou a minha revolta sem me exigir menos indignação e mais respeito porque apesar de ser exigente e severa percebeu que a minha brutidão e revolta não eram com ela, a minha desilusão e raiva não eram para Ela. Sentiu-se impotente no meu sofrimento e permitiu-me libertar todas as minhas angústias e medos. Deixou-me tirar a capa de fortaleza e ser fraca por instantes!
Nela queria apenas o conforto e aceitação de que eu não sou nem serei tão forte como Ela. De que estar doente nem sempre é fácil. Doar o nosso sofrimento a causas maiores e aprender com a dor é complexo e tramado. Suga-nos lentamente todas as reservas de energia, confiança e sem darmos conta rebentamos!
Vamos ficando menos piegas, mais frios e distantes. Evitamos os remédios e mais remédios e começamos a adiar e odiar as idas aos médicos. Entra-se no mundo da saturação!

Não acho que seja piegas, não acho que me queixe por tudo e por nada até porque nunca me permitiram fazê-lo! Aprendi a engolir a dor e não chatear os outros mas nem sempre é fácil!
Nem sempre é fácil entrar em hospitais e estar sozinha. Nem sempre é fácil olhar para o lado quando nos põem o soro, fazermos exames sem saber o resultado, vermos pessoas piores que nós a não terem uma mão ao lado e ali meio perdidas...
Não foi fácil na sexta-feira fazer um exame tramado que por ter sido mal feito me fez ficar rodeada por um mar vermelho. Não é fácil esquecer. É complicado gerir e acreditem que o estar calejada em maleitas e ter um "hotel" como segunda casa não diminui o sofrimento, não apaga o que o corpo sente e o espirito não perdoa!
Desta vez fui mesmo mariquinhas! Agarrei com toda a força a mão de uma auxiliar que ainda hoje deve ter tatuada as minhas unhas e estiquei todos os dedos dos pés o mais que consegui! Entre médico e enfermeiras não fui bebé e aguentei-me a todo o esforço mas mal o Manuel chegou foi impossível não deixar escorrer as lágrimas que por obrigação e orgulho não permiti que saíssem! Escorriam descontroladamente enquanto ele querido e paciente as limpava e com o olhar me dava conforto e segurança. Foram o suficiente para que me sentisse protegida e deixasse que a calma lentamente se apoderasse de mim! Passado horas e melhor já estavamos em casa a recuperar.

Graças a Deus e a muitos bons corações tenho tido várias mãos perto de mim! Vários olhares ternos e dedos suaves a limparem-me as lágrimas quando estas caem de desespero, cansaço ou medo.
Muito obrigado a todas estas mãos que me vão tornando estas passagens pela minha "segunda casa" mais suaves! Muito obrigado por me confortarem o coração e aliviarem a alma!
Gostava que cada doente tivesse uma mão para apertar quando vai fazer um exame, quando espera e desespera por um resultado, quando chora pela falta de alguém ali.
Entre pensamentos e medos que nos invadem nestes processos de entradas e saídas, olharmos para o lado e termos alguém que amamos e nos ama é bom, é bonito, é confortante!
São estas pessoas que nos chamam à realidade e nos lembram que tudo vai passar e vale a pena estarmos cá! São estas pessoas que nos tornam especiais e não nos deixam desanimar e desistir!
São vocês que com os vossos gestos e palavras nos fazem ser mais fortes! Que nos amam e acreditam que no final de tudo o nosso amor consegue ser superior a todas as dores, a todos os exames mal feitos, a todas as incertezas e dúvidas! São vocês meus queridos que me fazem sorrir!

Adorava não saber sequer o que é ter saúde porque a verdade é que só lhe damos valor e nos apercebemos do que realmente significa quando esta fica escassa...
Ao pé de muitos as minhas maleitas ainda são saúde e sinto-me ingrata quando estes acessos de raiva e revolta chegam e os deixo entrar!
Sei e agradeço muito a minha vida mas como pessoa não sou perfeita! Não consigo engolir sempre a dor e ser forte! Não sou aquela fortaleza que tão queridos me dizem ser. Sou fraca e egoísta ao ponto de ter e querer ter sempre ali uma mão e mesmo assim chorar!
A vocês tudo agradeço porque nem sabem a importância que as vossas mãos e palavras têm na minha vida!

Rezo por todos os doentes que ao contrário de mim realmente têm doenças graves e desesperantes! Eles sim poderão explodir, eles sim poderão desanimar e nem por isso se calhar o fazem! Alguns deles sem nenhuma mão amiga...
Neste meu caminho tão mas tão mais fácil que muitos outros tenho vezes como esta em que não consigo ter a humildade e paciencia necessária para aceitar e lidar com a incerteza do sofrimento!
Quando isto acontece lembro-me da oração que um amigo me ofereceu e que durante muito tempo me adormeceu e acordou e tento lá chegar:
"Nada te perturbe, Nada te espante,
Tudo passa, Deus não muda,
A paciência tudo alcança;
Quem a Deus tem, Nada lhe falta:
Só Deus basta."

Santa Teresa D'Avilla

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

A mulher da minha vida? Deixei-a ir...


Ontem ouvi esta música pela primeira vez e gostei! Normalmente ouço as músicas mas não ligo nada à letra  e deixo-me levar pela melodia.
Não sei porquê no meio do meu "Na na ni na ná" a tentar acompanhar o ritmo, parei na parte em que ele canta "That I should have bought you flowers".
Olhei para o Manuel e disse-lhe logo: "Há muito tempo que não me compras flores!".
Foi em jeito de brincadeira mas ficou dito para ver se pegava...
A partir daí, deixei de tentar cantarolar a música e ouvi a letra.
"Cause all you wanted to do was dance Now my baby is dancing, but she's dancing With another man" mal ouvi esta parte, a rir-me e com olhar torcista dei logo a dica ao Manuel " Não me dês flores não! Ficas assim como ele!" ;)

Hoje voltei a ouvir a música e não consegui deixar de pensar em todos os homens que perderam as mulheres das suas vidas!
Em todos os homens que já as tiveram ao seu lado e só depois de as verem voar noutros céus se lembraram do que poderiam ter dito, feito e aproveitado!
Pensei nos homens que por uma ou outra razão não o fizeram quando deviam e por isso, agora limitam-se a assistir a um presente com a consciência que não conseguem alterar o passado e que o futuro não passará por eles.
Verem aquela que mais amaram ter agora a vida que juntos entre risos e brincadeiras em tempos imaginaram e planearam mas com outro, deve ser um valente murro no estomago que os deixa sem ar e demora até voltar ao sitio...

Será que conseguem encontrar outra mulher? Será que daqui a vinte anos quando se cruzarem com as mulheres das suas vidas ainda vão tremer? Será que se casam com medo de ficarem sozinhos e ficam sempre a pensar no que poderiam ter feito? Como poderia ter sido?

Os homens são diferentes das mulheres. Acho que é mais difícil amarem verdadeiramente alguém e entregarem-se totalmente. Quando o sentem e  por teimosia sua o perdem, há-de ser um processo complexo retirar esse amor de todos os poros da pele.
Deve surgir uma reviravolta digna de mesas decoradas com copos de shots virados todos de seguida e insónias constantes.
Adormecerem e não pensarem no "e se" que os leva a sonhar com a realidade que perderam deve-se tornar quase impossivel e insuportável.
Suponho que seja assustador viver com o que se poderia ter feito mas não se fez...Acordar, quando o sonho é melhor que a realidade!

Gostava que todos estes homens voltassem realmente a encontrar o par da sua dança!
Dariam as flores que em tempos se perderam, a mão que ficou solta vezes demais, partilhariam sorrisos e tempo! Não teriam medo de correr atrás do coração e deixar por terra orgulhos e feitios. Seriam felizes e só assim fariam felizes quem estivesse com eles!

Ainda bem que o Manuel me enviou flores há uns anos! Ainda bem conseguimos e soubemos à nossa maneira engolir por várias vezes o nosso orgulho! Ainda bem que nos deixámos levar pelo que sentiamos e ainda hoje dançamos os dois!
Espero que assim fiquemos! E um dia, já corcundos e cheios de rugas continuaremos a cantar e dançar ao som do meu "Na na ni na ná"!