quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Até lá, adoro-te!

Oficinas de Escrita de Manuela Gonzaga: “Se tivessem um correio para o passado, uma espécie de DHL de custo zero, a quem enviariam a vossa carta? A quem escreveriam as palavras 'que sempre te quis dizer'? Pensem nisso. É por ai que caminham agora, as e os nossos oficiantes.


Segui a dica e escolhi escrever-te a ti! 

A ti que me adoras desde pequena e que entre olhares franzidos e duros lanças sorrisos matreiros e ternurentos.
Sei que me adoras e amares-me seria complicado.
Amar não é simples, não se impõe ou se sente porque sim. Amar é tão complexo que temos que nos desprender de uma imensidão de coisas, e tu ainda não o fizeste.
Adoras-me por tantas razões mas nunca me chegaste a amar.
Quem ama preocupa-se, cuida, protege e isso tu tens feito! 
Quem ama pergunta, interessa-se, deixa cair feitios para chegar perto e estar presente, e isso é complicado para ti.
Talvez me tenhas amado à distância entre silêncios e pensamentos. O nunca saber o que esperar, se um sorriso ou cara feia, desviaram os nossos caminhos.
Quando estás disposto a dar mais de ti damo-nos lindamente e somos Sol e Girassol! As vezes em que desde miúda quebrava o gelo do teu feitio davam-me gozo e o meu coração sorria e rejubilava por achar que tinha tocado no teu. Por instantes o escudo de ferro derretia-se e sentia o melhor de ti a chegar a mim!
Hoje não sinto esse gozo porque cresci e mesmo que não o queiras ver, já não sou “a miúda” que de tudo fazia para te retirar a máscara. A alegria quando por acaso estamos juntos tem de ser espontânea e não sugada.
Tenho receio que mergulhes no teu silêncio doloroso e talvez por isso não partilhe contigo tudo o que gostaria de te dar a conhecer! 
Somos muitíssimo amigos e mesmo há distância e de tempos em tempos, contamos segredos, trocamos lágrimas nas alturas mais difíceis e procuramos conforto em palavras escritas. O que temos que dizer, dizemos! As mágoas que temos pelo passado ainda estão por ser lidas.
Acho que me adoras! Percebo que o faças de uma maneira muito própria e distante mas não peças que o meu coração compreenda algumas falhas que o teu também grava.
Estás em mim, fazes parte da minha vida e cada vez que os que te são próximos te atraiçoam entre jantares e almoçaradas que ofereces, não leves a mal mas viro leoa porque ao contrário deles, de ti nunca esperei um Judas, apenas um coração envergonhado com amor suficiente para abraçar o mundo!

Não te amo, adoro-te! Adoro-te por tudo!

E se um dia criarem um livro de instruções para cada um de nós, sou a primeira na fila para comprar o teu, e aí, talvez a nossa adoração flua facilmente! 
Aí, talvez troquemos as mensagens escritas por abraços e mimos.

Até lá,

ADORO-TE!

Ps: este texto não é para o meu Manuel, a ele não me fico pelo Adorar ;)


quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Memórias de Infância!







Nas oficinas de Escrita tive de escrever sobre as minhas memórias de infância! Entre, escrevo ou não escrevo? Aconteceu mesmo ou serão partidas da minha memória? Apetece-me fazer essa viagem tão profunda ao meu eu? Serei suficientemente "crescida" para escrever sobre partes da minha criancice? 


Nunca pensei que fosse tão difícil escrever sobre mim. Deixar preto no branco, sem floreados e personagens, a minha origem, a complexidade das minhas memórias de infância, a base do que sou hoje. Não me darei a conhecer na totalidade e nem mesmo todas as minhas memórias de infância porque nem todas estão devidamente relembradas e trabalhadas no meu íntimo ao ponto de as transpor e escrever. Nem darei a conhecer todas, não por vergonha, mas pelo medo de não as conseguir dignificar e homenagear como pretendo. Como recordo. 


Irei sim, dar a conhecer uma pequena parte do que tanto procuro amarrar e colar no coração todos os dias, com medo que se perca. As memórias da minha infância até aos cinco anos. A recordação dos que me trouxeram a este mundo até ao dia que fiquei sem eles! 




Ticas Graciosa! Alcunha adoptada pela minha irmã mais velha em troca do meu nome de batismo, Maria Teresa. Depois, fui-me apercebendo da existência do nome de família “Graciosa”, pelas vezes em que tias me agarravam as bochechas sardentas e me diziam que só podia ser Graciosa! E assim fiquei até hoje, a Ticas Graciosa para os amigos. 
Os meus pais morreram quando eu tinha apenas cinco anos. Nessa altura, vi-me obrigada a trocar o ar seco e a paisagem vasta e agreste da Beira Baixa em tons amarelados, recheada de magníficos penedos e imponentes sobreiros, pelo clima ameno e menos campestre da Beira Litoral, onde fui viver para um palácio cujos muros nem sempre conseguiam esconder outras casas mais pequenas mas dentro da sua beleza ainda me permitia sonhar. Aí, vivíamos num casarão onde podia correr para ir à casa de banho e esconder da minha avó todos os pães que não queira lanchar, até ao dia em que era apanhada e tinha de os comer a todos em sopas de leite, como castigo. Tive a graça de nascer e crescer no seio de uma família enorme que, entre quintas e cavalos, cães e touros, bicicletas e cavalgadas, nos fomos conhecendo, entendendo e entrelaçando! 

Perdi os meus pais mas ganhei uma ligação especial com os avós, tios e primos. Cada um acabou por ter no meu coração um lugar especial. Ainda relembro com prazer quando nos chamavam a mim e à minha irmã, por nesse tempo sermos unha com carne, as “Ticas” ou “As manas catatuas, quem leva uma leva as duas”.  

Os cães eram amigos, sempre tão pacientes, e com eles partilhava em brincadeiras tanto do meu tempo. Agarrava-os, trocava os chupa-chupas, punha-lhes óculos de sol, tirava-lhes os óculos de sol. 
Não tinha problemas com a roupa, se sujava ou não sujava. Lembro-me apenas que brincava despreocupada. 
Rio-me e volto a ter a mesma sensação de medo e borboletas na barriga quando recordo a brincadeira que fazíamos com os primos mais velhos. Corríamos atrás de um pónei no meio da pastagem, até este pelo seu feitio especial se zangar e cavalgar atrás de nós para nos morder. A sensação de ser puxada pela minha prima Maria – mais velha que eu, com a peculiaridade de ter um olho azul e outro verde que me fascinava – ainda hoje se faz sentir.  


Os piqueniques nas pastagens entre os sobreiros com os meus pais e amigos. As correrias e brincadeiras e mais uma vez a sensação de liberdade! 
Os jantares inesperados e preparados em instantes para muitos que, nas noites de verão, se faziam na mesa de pedra comprida em frente à casa grande. Num desses jantares e já depois de escurecer, ao tentar ir buscar fio dental para limpar os dentes, inclinei o armário fino e alto da casa de banho. Sem me aperceber que no topo deste estava um autoclismo de loiça continuei a puxar a gaveta do armário e a peça de loiça foi direta à minha cabeça. Chorei e chorei e, nessa altura, o pátio ainda me pareceu maior! Até conseguir reencontrar, entre a pouca luz e os muitos convidados, o colo, o conforto, os braços da minha mãe estive em pânico! Evidentemente, fui para o hospital, levei dois pontos e chorei imenso. Ao meu lado, estava um rapaz também com os seus cinco anos que enfiara um amendoim numa das narinas e não conseguia retirá-lo! Aquela visão ainda me fez chorar mais e, de barriga para baixo com uma mão dada ao meu pai e a outra à minha mãe, chorei e chorei. A cicatriz mantem-se e quando a sinto é bom relembrar aquelas mãos comigo.

O prazer que me dá relembrar a noite em que, suponho devido ao calor que se faz sentir naquela zona da Beira Baixa no verão, 40ºC, secos e sem qualquer aragem de ar fresco, fui com os meus pais, irmã e mais alguém que não me recordo, colar placards de uma tourada pelas paredes da vila. O cheiro da tinta, a adrenalina de estarmos ali de noite, o vento que apanhávamos na carrinha de caixa aberta, o delírio de estar acordada àquela hora e com os crescidos fora tão intenso que facilmente viajo para essa noite.
E outras, como as noites em que o meu primo José Maria, depois de caçar aparecia em nossa casa. E eu, que já estava na cama, levantava-me para ir espreitar aquele “homem” sentado no nosso sofá com uma faca à cintura. Na altura tinha medo daquela figura e o medo criava-me a curiosidade suficiente para arriscar sair da cama e levar um castigo. 

Da minha mãe, guardo a paciência com que nos vestia de manhã para a escola, as vezes que se agarrou a nós como escudo para nos proteger, as suas gargalhadas e boa disposição. O vestido de fada azul que usei no carnaval e creio que foi cozido por ela. O entusiamo com que assistiu à peça de teatro em que vestida de amarelo fiz de pitinho e ao som da canção:

 “Pintinho pintinho pintinho Piu, 
Subiu numa pedra depois caiu! 
A dona Galinha ficou zangada, 
Pegou no pintinho e deu-lhe uma palmada!”

,apenas tinha de subir uma pedra da calçada colocada no palco e no momento certo cair e levar a palmada da mãe galinha. Mal sabia a galinha que eu, pintinho sardento em palco, não ia gostar de levar uma palmada e em frente à plateia dei uma palmada na mãe galinha. Sei que estava na plateia, não tenho presente a reação mas ainda hoje canto esta música aos mais pequenos, ainda hoje imagino, se como divertida que era sorriu ou se como mãe me ralhou…Guardo um grande amor e principalmente no pouco tempo que teve comigo o quanto me mimou! Não era perfeita e no meio de um rebuliço tão intenso quem se vai aguentando corre o risco de atingir a perfeição ou ser cruxificada pela culpa do vendaval. No meu coração para além das imensas saudades deixou a curiosidade das causas, do que a manteve ali, o espanto do que o amor e medo podem causar. Guardo o seu sorriso e choro disfarçado, as vezes que me deu colo e embalou para que as minhas lágrimas parassem como caem hoje simplesmente por ter saudades de dizer “mãe”! É difícil manter as lembranças, descolar da palavra mãe a figura que tive e relembra-la é tarefa que faço de quando a quando para que nunca seja só e apenas uma figura em fotografias mas permaneça viva pelo que realmente foi e deixou em mim!

O meu pai… Talvez pelo seu temperamento menos constante deixa bastantes silêncios nos meus pensamentos e algumas memórias que preferia que fossem falsas e imaginárias, mas não o são. Aprendi a lidar com elas, percebi que quando se ama não se esquece mas perdoa-se!
Recordo o Natal em que recebi a minha bicicleta azul e branca com rodinhas atrás. Lembro-me de estar no Páteo grande da quinta envolvido pelas casas, picadeiro, boxes para os cavalos e com larga vista para as pastagens repletas de sobreiros com o cabeço em segundo plano recheado de penedos. Foi neste Páteo, onde ainda se conseguia avistar uma das barragens, a mais pequena, que, empurrada e ajudada pelo meu pai dei as primeiras pedaladas na bicicleta que tanto me acompanhou nos anos seguintes onde sem travões desbravava caminhos e acelerava nas corridas entre primos.  

Sentia-me livre naquele ambiente. Os dias passavam-se entre bezerros, passeios a cavalo na Toma, égua do meu pai, tão mansa que nos deixava montar para sermos passeadas sem guia, apenas seguindo a figura dele que caminhava devagar ao lado da sua cabeça. Recordo com carinho e saudade o aconchego de me enroscar à noite no sofá entre os meus pais. A vontade que ainda hoje sinto de voltar atrás para voltar a ser a intrusa entre os dois, naqueles momentos mágicos. Recordo ainda as viagens no Citroen encarnado em que adormecia a ouvir as músicas dos Gipsy Kings. Ao ouvi-las ainda me emociono, talvez porque me trazem um bocadinho deles, talvez porque sei que em tempos as ouvimos todos juntos! 

Uma recordação mais carinhosa traz-me de volta as vezes em que os meus avós iam passar uns dias à Beira Baixa. Nessas alturas, a avó, sempre prática e despachada, contornava-nos os pés numa folha branca com uma caneta, para, da próxima vez que voltasse, nos trazer sapatos. Mal sabíamos então, que poucos anos depois, o destino aproximaria mais ainda os nossos corações e faria com que nos amássemos como mãe e filha.  





Estas e outras lembranças ainda por aprimorar até poderem ser registadas com a dignidade que merecem, são algumas das muitas que a criança que eu fui guarda a sete chaves no segredo do coração. Por agora, deixo aqui algumas. 
Haverá outras, tantas e tantas, das várias fases da minha vida, que serão registadas, talvez em forma de romance, talvez fantasiadas. Para poder introduzir-lhes as presenças maravilhosas das fadas e dos duendes do mundo mágico a que todas, ou pelo menos quase todas, as crianças e adultos têm acesso. 

Caso os duendes não se enquadrem no meu mundo e as fadas percam a varinha mágica, sairá em forma de biografia para dignificar quem amo e, quem sabe, ajudar a que outras crianças possam recordar as suas memórias de infância com os que amam perto! 





quarta-feira, 18 de setembro de 2013

A minha (vossa) vida dá um livro!


Tenho frequentado as Oficinas de escrita da escritora (tão querida) Manuela Gonzaga. Esta experiência tem ultrapassado a escrita e, sem estar preparada para isso, comecei uma viagem que me tem transportado para dimensões magnifícas e até então desconhecidas. Tenho reavivado memórias, não perdidas mas bem escondidas. Descobri personagens únicas e marcantes. Essencialmente, tenho percebido o quão especial nós somos e a importância que da nossa singular vida, plena de sentimentos e vivências únicas! 
Afinal, somos todos corações com cicatrizes e explosões, com lágrimas de sangue e batimentos de alegria! Temos todos tanto de pó como de pastos verdes e cada coração tem imenso para contar e dar! 

A escrita está a ser feita. A leitura tem sido cada vez mais intensa e atenta para ganhar vocabulário,como nunca o fizera. O desejo de escrever corretamente e dignificar o que o meu coração valente sente é cada vez maior. O pânico da edição dos textos que escrevi num livro está presente e faz-se sentir, nas borboletas que sinto com o medo em fracassar ou desiludir mas que balança com a imensa curiosidade em descobrir a sensação de ter algo meu publicado, palavras minhas que entre textos de outros autores, perdurarão no tempo!
Teremos direito a um lançamento, ao qual ainda me sinto inibida a fazer convites para continuar a vibrar com experiência tão enriquecedora no mundo da escrita e emoções.

Continuo esta viagem que me fez encontrar pessoas espetaculares, com histórias que se cruzam com a minha e me fez perceber que, tal como a de todos, também a minha vida dá um livro! 

Livro, que está a ganhar vida! :)


"Que mais pode ensinar uma Oficina de Escrita? Pelo menos nas que propomos, e acredito que nas outras também, pode ensinar o caminho do coração e o caminho das entranhas, alicerces da imaginação criadora. Seja qual for esse coração e sejam quais forem essas entranhas. Porque é aí que importa ir para recuperar a voz, única, irrepetível, de cada um de nós. 

O resto é trabalho. Trabalho de casa. Trabalho de grupo. Muito, muito e muito. De capacete na cabeça e picareta na mão. A partir pedra, literalmente. Estamos todos tão atulhados de conceitos e preconceitos que chegarmos até nós, dá trabalho. Mas é uma viagem e tanto!!! Caramba, que viagem." Manuela Gonzaga




sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Pé ante pé!

Há um ano decidi começar a aventura de escrever um livro.
Comprei três cadernos em branco e durante algumas semanas escrevi e escrevi.
Apesar de ainda não ter delineado o fim, sempre soube o principio e foi fácil deixar rastos de tinta no papel.
Um dia o meu querido avô sempre interessado pediu-me para ler as primeiras trinta páginas... desde esse dia que bloquei. Começava a escrever e riscava, pensava em todas as frases três vezes e relia tudo vezes sem conta. Escrever tornou-se um esforço e fui deixando de o fazer.
Percebi que tenho pânico de ser avaliada e piora quando o avaliador é aquele que amo!
Conheci em mim o medo de pôr à prova aquilo que faço, dar a alguém a oportunidade de estragar o que nos dá prazer fazer é complicado.
Sei que o meu avô gosta do que escrevo, incentiva-me e sempre foi o primeiro a investir em mim em tudo mas na escrita em especial. Era aos meus avós que desde pequena escrevia para lhes dizer o que sentia e me ia na alma e talvez por isso a fasquia tenha aumentado e os meus dedos bloqueado!

Foram surgindo vários cursos e um deles com um amigo que escreve e tão bem! A vontade de participar sempre fora imensa mas lá voltava o medo, escrever para uma amigo? Dar-me a conhecer da maneira mais pura e intima que consigo - a escrita- não vai ser fácil e mais ainda com um amigo?
Nunca me inscrevi!
Até que há uns dias atrás em que a passear pelo facebook li na página do Manuel Forjaz a sugestão da Oficina de escrita de Manuela Gonzaga em que o tema é "A minha vida dava um livro".
Leio mais e a estrutura é uma viagem por nós mesmos, quem sou eu? que pessoas ao meu redor me marcaram? A minha vida dava um livro! - e não é que o nome do meu blogue está perto?

Pesquisei a escritora, gostei das criticas e cada vez mais me queria inscrever!
Liguei ao meu amigo, pedi-lhe desculpa pela sacanagem de ponderar fazer outro curso que não o dele e entrei na parada!

Comprei o livro "Maria Adelaide Coelho da Cunha: DOIDA NÃO E NÃO"  de Manuela Gonzaga para não ter medo de despir a minha alma e assim levar comigo uma ténue segurança no vago conhecimento de  quem receberá as minhas letras, as minhas palavras, os meus textos tão cheias de coração!

Um dos muitos passos foi agora dado! Um dos vários medos espero que seja ultrapassado!
Pé ante pé vou criando e escrendo o livro, pé ante pé vou-me conhecendo! 

O que é que sentes Ticas?
Borboletas!

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Amanhã é outro dia!






Conheciam-se há anos.
Trocaram brincadeiras, fizeram apostas, mascaram a pastilha um do outro!
Sem vergonhas partilharam segredos entre meias com o dedo grande a espreitar.
Fumaram às escondidas, beberam copos e escaparam entre o luar e amanhecer.
Confidenciaram o primeiro beijo, contaram entusiasmados a primeira noite.
Discutiram e choraram juntos.
Acabaram por bater a porta e a amizade converteu-se em pólen sobre o ar.
Cruzam-se, falam-se, trocam palavras quando o desejo é de abraçar!
Bebem uns copos e frases são ditas...
A amizade reaparece, as zangas esquecem-se e tudo flui.
Passados dias reencontram-se num meio mais fechado.
As lembranças voltam, os ressentimentos mantêm-se!
A bebida é água pura e fresca sem rasto algum de álcool.
A frieza e orgulho exibem-se para esconder a alegria do reencontro.
A amizade volta a ser pólen quando o desejo é de abraçar!
Reconfortam-se por se verem bem!
Inspiram forte e entusiasmam-se com a impossibilidade de matarem saudades...
Revivem imagens dos melhores tempos das suas vidas,
Sorriem por dentro e o coração palpita.
Estremecem e optam por recordar apenas as horas vividas,
Abdicam de um segundo sincero de reconciliação...

A amizade vai-se perdendo quando o desejo é de abraçar!

As palavras quando não pronunciadas ou escritas existem apenas em nós!
O que pensamos e sentimos são apenas ideias vagas e sem destino se não damos asas ao desejo e abraçamos!
Há palavras que não merecem ser ditas em prole de outras que terão que o ser.

-Gosto de ti! Quero abraçar-te! Posso?

-Quero!

- E o resto?

- Amanhã é outro dia!

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Um dia tive um sonho...





Há sonhos impossíveis de realizar, pedidos impossíveis de alcançar!
Em pequena foram várias as vezes em que sonhei que os meus pais interrompiam o meu sono irrequieto e calmamente entravam os dois pelo meu quarto!
A primeira sensação era de que até aquele momento tudo tinha sido ficção! Estavam vivos e por alguma razão teriam estado escondidos! No meu imaginário teriam aguentado todo o tempo sem me ver apenas para me surpreenderem, apenas para passarem a porta e invadirem os meus pesadelos tal raio de sol que espreita entre as portadas da janela.
O meu coração palpitou inúmeras vezes longos minutos, o meu sossego esquecia o desassossego constante e o meu espírito e alma sorriam! Nesses segundos, que transformaria em eternidade, dormia numa suave nuvem de algodão embalada por ternas mãos. Eles não se chegavam o suficiente e eu não saia da cama mas vi-os ali a olhar para mim, sentia-os perto!

A vontade de os ter comigo de os querer ali perto de mim era tal e em demasia que não me permitia acreditar que já não estavam!
O meu subconsciente brincava com o meu consciente ainda demasiado novo e criança para duvidar do quer que seja! E neste jogo de escondidas foram-me pregando estas partidas e dúvidas terríveis!
Permitiam-me minutos de alegrias explosivas e retiravam-mas em milésimos de segundos! Foram ilusões repetidas tantas e tantas vezes que pareciam reais!

Chorei e chorei todas as vezes em que abri os olhos e na porta não estava ninguém!
Chorei e chorei quando percebi que na nossa realidade os mortos não jogam às escondidas para fazer “surpresa”!
Chorei e chorei quando aos poucos e todos os dias parte de mim se ia apercebendo e interiorizando do que era e é a morte!
Chorei e chorei cada vez que sentia que perdera alguém que me ama e amo!
Chorei e choro!

Com cada lágrima escorrida cresci e aprendi!
Aprendi a lidar com todas estas partidas e jogos e percebi que é essencial ter tudo no consciente!
É necessário encararmos os factos da nossa vida mesmo que estes nos façam chorar e chorar!
Torna-se imprescindível conhecermo-nos e percebermos a razão de cada lágrima pois entre linhas e laçarotes e por muito que se fuja somos sempre descobertos!

Voar a achar que tenho asas?
Seria um risco!

Aprendi a sonhar! A viajar entre nuvens que me deem oportunidades de matar saudades! A alimentar sonhos que me permitam voar! A saber o que tenho e onde devo e posso planar! A ser feliz com que a minha falta de asas me permite viver e sentir! Sobrevoo o que me agrada e sem dúvida que aterro na aposta que todos os dias faço, em mim!

Realista ou ilusionista?
A maioria das vezes realista com a necessidade de ténues explosões de ilusão!

Sonhadora?
Sempre!

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A Flor!





                               

 
 
Era já noite quando recebi a mensagem de uma amiga do Porto a pedir ajuda para uma Família!
A filha de 4 meses está doente e tinha sido transferida para o hospital Santa Marta em Lisboa. Nasceu prematura e desde então tem tido problemas graves no coração! A sua salvação passará por um transplante de outra criancinha pequenina e indefesa! Leis da vida difíceis de entender, esperar pela morte de outro ser humano tão puro e inocente para que a vida que gerámos se mantenha entre nós!
Esta é a realidade da Família Saúde! A realidade que conheci hoje e que de uma maneira tão especial me preencheu este dia de férias!
Se ontem quando recebi a mensagem já deitada no sofá pensei três vezes antes de dizer que sim, hoje a minha vontade é acordar amanhã e estar com aqueles pais!
Aqueles pais que me receberam de braços abertos e sem nunca me terem visto entraram no meu carro e confiaram! Abriram os seus corações e deixaram-se levar por mim e abraçar por Lisboa nunca antes por eles visitada!
Entre chegar e não chegar, estacionar e não estacionar foi fácil sentir os nervos e entusiasmo da mãe pois falava e falava, por seu lado, o pai sentado no banco detrás estava silencioso e tímido.
Entrámos no hospital e sinto as palpitações e uma enorme ansiedade nos dois! Percorremos os corredores, enganámo-nos no andar e nestas andanças percebemos que já todos conheciam a pequenina Flor acabadinha de chegar do Porto!
Finalmente chegamos aos cuidados intensivos! Tocamos à campainha e quando eles acham que podem entrar e ver o seu pequeno coração têm de recuar e aguentar: as visitas são às 17h00 e naquele segundo eram 16h56!
Quatro minutos com a mãe a balançar entre pernas e a tocar com os pés um no outro como chocam os carrinhos de choque! O pai bastante mais nervoso procurava um carregador de telemóvel, até que digo:
-No meu já são 17h00!
Tocam a campainha, abrem a porta e entram disparados os dois!
Cá fora, fico eu à conversa com um senhor que ia visitar a mulher operada ao coração!
Enquanto falamos penso para comigo que aceito facilmente que alguém com mais experiência de vida sofra do coração! São muitos anos, palpitações entre segundos, alegrias e tristezas, tanta coisa que um coração já com bastantes anos aguenta que percebo!
Um coração com meses de vida, pequenino do tamanho de um morango de que sofrerá? Porque será tão fraquinho? Não será logo à partida uma cruz tão grande e pesada para um corpo tão ingénuo e delicado?
Rezei! Voltei a rezar! Rezei para não pôr em causa a minha fé! Rezei para acreditar num milagre de Santa Marta! Rezei a agradecer este movimento espetacular de pessoas que em dois dias conseguiram dar esperança a esta família e conseguiram trazer a Flor de helicóptero para Lisboa e ver uma luz ao fim deste grande túnel!
Rezei, pelos médicos que lhes negaram o transporte de helicóptero mas que sob ameaça de queixa acabaram por mudar de ideias e a nossa Flor veio para Lisboa não de ambulância e buracos das estradas de Portugal mas a voar!
Enquanto tentava enquadrar esta realidade que tinha recibo há minutos na minha vida no meio das minhas férias, o pai da Flor surge apressado na porta! Tínhamos de ir falar com o assistente social para tratar do alojamento deles!
Caminhamos pelo hospital e não foram precisos muitos passos para que aquele homem, aquele coração de pai, cheio de medo de perder parte de si, desata-se a chorar! Chorou comigo, à minha frente, entre os meus braços e não me conhecia!
Naquele momento acho que o meu coração ficou ainda mais pequeno e apertado que o da Flor!
A vida é tão curta e por vezes tão dura! Que descaramento o meu cada vez que me queixo! Isto sim são dores! Isto sim são problemas e mesmo com eles este casal sorri e acredita!

Deixámos a mãe a mimar a pequenina e seguimos os dois para a Fundação Infantil Ronald McDonald! Fiquei estupefacta! Aquelas caixas perto das caixas registadoras dos restaurantes para fazermos os donativos são de louvar! Deparei-me com uma casa espetacular apenas para acolher famílias com crianças hospitalizadas! Com dez quartos, todos eles bem decorados e limpos! Duas salas igualmente giras, espaçosas e que convidam ao convívio! Uma cozinha dividida em várias para ser usada por cada duas famílias! Um terraço espetacular com uma vista tranquilizante! Esta família vai ter uma casa enquanto esperar que a sua pequenina recupere e ganhe um coração novo que a faça crescer! Esta família tem ali um porto seguro!
E ali estava eu! Conhecera aquele homem à minutos e pedia-me que o acompanha-se na visita à Fundação! Olhava para mim como uma criança quando procura no pai ou mãe um porto seguro! Com o dobro da minha idade pedia-me para fazer as perguntas por ele e sentia-lhe a ansiedade em regressar para perto da sua pequenina!
Para trás deixaram três filhos entregues aos avós! Bem no norte ficaram todos os seus suportes, todos os ombros amigos! Contam agora um com o outro numa cidade nova e desconhecida! Contam agora com a bondade e caridade de quem lhes quiser dar uma mão amiga!

Unidos nos seus sorrisos por terem visto a sua pequenina mais rosadinha! Esperançosos que a operação que manterá o coração a bater enquanto espera outro do seu tamanho corra bem! Entregues ao destino e à enorme crença que os milagres acontecem!


Acredito em milagres! Vejo pequenos milagres em todos nós que tocamos na vida dos outros com pequenos gestos e sem nos apercebermos mudamos vidas, geramos sorrisos, damos confiança e esperança! Quem sabe se todos nós não fazemos o coração da Flor bater tão depressa e tantas vezes como as asas de uma borboleta?
O milagre já está a acontecer e vamos ver até onde se estende!

Agradeço a Nossa Senhora por me ter colocado a Família Saúde no caminho! Por no meio das minhas férias entre praia, sol, copos e festejos tenha percebido a graça que tenho em ter saúde, em achar que tenho problemas que comparados com este são apenas meras estupidezes de fácil resolução!

Obrigada meu anjo da guarda por me chamares à realidade e fazeres valorizar tanto o que tenho e a sorte do dia-a-dia em que vivo! Por sentir e viver estes sentimentos tão bonitos e poderosos que me preenchem mais que qualquer outra coisa! Espero conseguir usá-los para da maneira que me for possível ajudar os outros!

Obrigada a todos os que ajudaram e continuam a fazer parte deste milagre!
São espetaculares!